DISTÚRBIOS COGNITIVOS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO: ASSOCIAÇÃO ENTRE TABAGISMO E ALCOOLISMO

Danilo Francisco da Silva Marçal, Eduardo Gauze Alexandrino, Lucia Elaine Ranieri Cortez, Rose Mari Bennemann

Resumo


Introdução: O processo de envelhecimento da população traz consigo maiores prevalências de doenças crônicas, limitações da capacidade funcional, comprometimento cognitivo, declínio sensorial, risco de acidentes e isolamento social1. A identificação precoce do comprometimento cognitivo pode atrasar estágios avançados de dependência e demência na terceira idade2. Na tentativa de compreender quais são os fatores que podem contribuir e afetar o envelhecimento e a saúde cognitiva, revisões sistemáticas evidenciaram fatores de risco modificáveis associados à cognição e à demência, onde que vários fatores comportamentais foram selecionados, incluindo tabagismo, consumo de álcool e atividade física3-4. Tabagismo é fator de risco para diversas doenças crônicas, inclusive para a Doença de Alzheimer3-4. Evidências sugerem que o consumo  leve e moderado de álcool, durante a vida tardia, está associado com menor declínio na aprendizagem, memória e, consequentemente, melhor funcionamento cognitivo e menor risco de demência5-6. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi identificar a presença de distúrbios cognitivos e associar à prevalência de tabagismo e ao consumo abusivo de álcool em idosos. Métodos: estudo transversal, com coleta de dados primários e secundários e abordagem descritiva-analítica oriundo de um recorte de dissertação. Amostra de 180 idosos do município de Porto Rico, Paraná. Investigou-se o perfil sociodemográfico e econômico, distúrbios cognitivos, prevalência de tabagismo e problemas relacionados ao uso de álcool nos elegidos. A capacidade cognitiva dos idosos foi identificada por meio do Mini Exame do Estado Mental. Para identificação da situação atual e passada do uso de tabaco dos respondentes, foi aplicado o questionário adaptado Global Adult Tobacco Survey. A prevalência de alcoolismo foi identificada por meio do Michigan Alcoholism Screening Test – Geriatric Version (MAST-G). Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos do Centro Universitário de Maringá-UNICESUMAR, aprovado sob o parecer 1.423.637/2015. Resultados: a média de idade foi de 70,82 (±7,98) anos. Mulheres representaram 60,56% da amostra. 82,22% dos idosos apresentavam distúrbios cognitivos.  A maioria era casada (57,78%) e na sequência encontravam-se os viúvos (33,33%). Apenas 2,78%     dos idosos eram solteiros. No que se refere ao arranjo familiar, 88,89% moravam acompanhados. Pode-se identificar que muitos possuíam pouco ou nenhum tempo de estudo, 45,56% afirmaram  que não eram alfabetizados, e 39,44% possuíam de 1 a 4 anos de estudo. Quanto à renda familiar: a maioria encontrava-se entre 1 e 3 salários mínimos. A situação ocupacional era equilibrada, pois 41,11% encontravam-se ativos, mesmo com idade avançada, enquanto que 58,89% não se encontravam mais ativos. 83,33% moravam na zona urbana. As associações estatisticamente significativas (p<0,05), ou seja, que poderiam interferir diretamente na presença de distúrbios cognitivos, encontradas neste estudo foram somente grupo etário e situação ocupacional (p=0,040 e p=0,007, respectivamente). Sexo, renda familiar, estado civil, local de moradia, escolaridade e classificação socioeconômica não apresentaram associação estatisticamente significativa. Com relação à idade, a associação foi observada uma vez que quanto maior a faixa etária, maior a prevalência de distúrbios cognitivos, pois entre os que possuíam 80 anos ou mais (15,54%), todos apresentavam distúrbios cognitivos. Em relação aos problemas relacionados ao consumo de álcool, somente houve associação estatisticamente significativa entre os sexos (p=0,001), pode-se dizer que o sexo masculino foi mais acometido com este problema e apresentou indícios sugestivos de alcoolismo. Observou-se que a maioria dos idosos não apresentaram problemas relacionados ao  uso do álcool (88,89%). No entanto, todos os idosos que apresentaram indícios de alcoolismo (11,1%) possuíam comprometimento cognitivo (p=0,027), ou seja, neste estudo, idosos que não tinham problemas com álcool não apresentaram distúrbio cognitivo. Por fim, no que concerne ao tabagismo foram encontrados os seguintes resultados: 48,33% nunca fumou, 34,45% era ex- fumante e 17,22% foi classificado como fumante diário, sem associação estatisticamente positiva (p=0,719). Conclusão: houve associação entre a capacidade cognitiva, grupo etário e situação ocupacional dos idosos. A prevalência de problemas relacionados ao uso de álcool foi associada somente ao sexo masculino. O tabagismo não foi associado à nenhuma varíavel sociodemográfica, econômica ou à presença de distúrbios cognitivos. Quando comparados os problemas relacionados ao uso de álcool à presença de distúrbios cognitivos, nota-se associação significativa, ou seja, idosos que possuem problemas com uso do álcool apresentam capacidade  cognitiva  comprometida. Dessa forma, sugere-se que políticas públicas de incentivo aos hábitos saudáveis sejam direcionadas à população idosa de Porto Rico-PR. Idosos mais velhos e que não possuem ocupação podem ser estimulados a praticarem exercícios físicos e cognitivos regulares por meio   da participação social em grupos da terceira idade, por exemplo. Campanhas para diminuição do consumo de álcool entre os homens idosos também devem ser incentivadas. Desse modo, espera- se que a capacidade cognitiva dos idosos seja preservada e que a adoção de hábitos saudáveis   seja capaz de promover o envelhecimento ativo da amostra investigada.


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