ENTRAVES PARA REALIZAÇÃO DE CUIDADOS PALIATIVOS EM IDOSOS PELA ATENÇÃO BÁSICA: UMA REVISÃO QUALITATIVA

Kaysa Suassuna Lacerda, Ellen Laís Silva de Melo Lima, Maíse Soares Lopes Reis, Joana Carla Bezerra Martins Perez

Resumo


INTRODUÇÃO: É primordial ressaltar que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou 30,8 anos de 1940 a 2018, alcançando 76,3 anos segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística¹. Diante do cenário atual marcado pelo aumento da longevidade e avanços científicos na área da saúde, é inegável que a discussão sobre o envelhecimento e tratamentos dos processos patológicos frequentes nessa fase ganham cada vez mais relevância². Seguindo essa tendência mundial, em 1980 iniciou-se no Brasil o desenvolvimento dos cuidados paliativos, definidos pela OMS como prática capaz de humanizar e dignificar os pacientes por meio da minimização da dor física, espiritual e psicossocial², em sua maioria idosos com doenças degenerativas e crônicas de evolução progressiva que não respondem mais a tratamentos curativos.Com base nesse viés, é preciso entender a potencialidade da assistência multiprofissional na Atenção Primária em garantir qualidade de vida em um momento complexo à medida que promove um cuidado amplo, objetivando, sobretudo, discutir as dificuldades enfrentadas para sua concretização nesse nível de atenção que perpassam diversos aspectos³, como o despreparo dos profissionais e as limitações pertencentes ao sistema público. Reconhecendo assim, os cuidados paliativos aos idosos como problema de saúde pública no Brasil. METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa cuja a abordagem é teórico - metodológica qualitativa, e baseia- se em uma revisão integrativa, realizada por meio da análise dos resumos de fontes secundárias e levantamentos bibliográficos, a qual é uma metodologia crucial para os pesquisadores, pois permite conhecer mais profundamente sobre a temática pesquisada. As informações deste documento foram coletadas através de bibliografias selecionadas em artigos na base de dados Scientific Electronic Library Online (SCIELO), IBGE e The Worldwide Hospice Palliative Care Alliance, assim como, documento publicado pela Revista Internacional Científica Pain Reports. Para a seleção dos estudos, consideraram-se os seguintes critérios de inclusão: artigos publicados entreos 5 últimos anos (2015 -2020), originais, disponibilizados na versão completa e, em idiomas português, inglês e espanhol. Definiram-se como pontos de exclusão os textos dissertativos, teses, e políticas públicas. DISCUSSÃO E RESULTADOS É fato que os avanços tecnológicos na área da saúde revolucionaram a recuperação de inúmeras doenças. No entanto, condutas invasivas extremamente técnicas muitas vezes não são resolutivas a partir do momento em que prolongam o sofrimento do paciente e consequentemente tornam à assistência desumana. Nesse contexto,no Brasil em 2003 a Política Nacional de Humanização surge como movimento contrário à essa problemática a fim de valorizar em todos os níveis de atenção à preservação da dignidade humana³, sendo os cuidados paliativos uma alternativa para assistência de casos graves ajustada à essa política, uma vez que prioriza o bem- estar e se distancia do tecnicismo desumano.

Cabe pontuar, que a assistência paliativista requer uma equipe multidisciplinar definida de acordo com a necessidade específica do paciente em um contexto de cuidado personalizado e contínuo que tem como finalidade minimizar o sofrimento físico, emocional, espiritual e social sentido pelo paciente com doença que ameaça a vida e pelo entorno familiar em todos os níveis de referência². Assim, a Estratégia de Saúde da Família consiste em um serviço com grande potencial para a prática dos cuidados paliativos nos pacientes da população adscrita³ em que esse serviço é necessário por seguir os princípios de integralidade e longitudinalidade do cuidado por meio de uma equipe multiprofissional capaz de oferecer assistência domiciliar4. Contudo, é válido compreender os diversos fatores que impedem o exercício dos cuidados paliativos no nível de atenção primária³. De acordo com estudos que avaliaram o domínio de profissionais da saúde sobre cuidados paliativos, constatou -se um conhecimento insuficiente sobre diversas questões referentes a essa assistência³. Tal panorama evidencia uma formação profissional falha e retrógrada no que tange ao desenvolvimento das habilidades necessárias para a abordagem integral no contexto de finitude da vida5, distanciando-se assim da realização do cuidado humanizado. Um significativo entrave imposto por esta inabilidade para o avanço na assistência paliativa consiste na dificuldade da equipe de saúde em lidar com a situação de perda e finitude². Nessa perspectiva, a atitude comum dos profissionais de buscar a cura física e negligenciar outros aspectos relacionados a paliação, é a principal causa responsável pelo sentimento de frustração e impotência da equipe², visto que é crucial um olhar amplo que considere a morte um processo natural¹.

Somado a isso, é válido compreender as limitações impostas pela falta de recursos no Sistema Único de Saúde³. Em documento publicado pela Federação Latino-Americana de Associações para o Estudo da Dor a realidade da América Latina é marcada atualmente pelo subtratamento e uso insuficiente de analgésicos6. Diante do exposto, a escassez de arsenais farmacológicos na Atenção Básica a exemplo dos opióides e analgésicos, ao impedir a amenização do sofrimento que poderia ser evitado, impossibilita a garantia de dignidade aos pacientes sob cuidados paliativos². CONCLUSÃO Fica claro, portanto, a necessidade em propor intervenções eficazes para a superação dos impasses que ainda impedem a humanização e integralidade dos cuidados paliativos na Atenção Básica, uma vez que, o envelhecimento da população é acompanhado pelo aumento de doenças que ameaçam a vida. Nesse sentido, destaca-se a importância de promover a capacitação profissional continuada, desde da graduação até cursos de aperfeiçoamento voltados para equipes já atuantes, visto que, a integração entre a teoria e a prática permite que a Equipe de Saúde da Família proponha ao paciente e aos seus familiares uma completa assistência psicossocial⁷. A The Worldwide Hospice Palliative Care Alliance em 2020 reafirma a importância de priorizar o desenvolvimento de políticas públicas que percebam como essencial os cuidados paliativos na atenção básica8. Logo, investimentos em recursos estruturais e farmacológicos tornam-se indispensáveis para que a atenção paliativa possa de fato minimizar o sofrimento do paciente e de sua família, seja ele de origem física, psicológica, social ou espiritual.Desse modo, os idosos podem ter percepção positiva do envelhecimento através da ressignificação de experiências extrínsecas adquiridas, da crença do próprio suporte espiritual e da aceitação das suas limitações9. Afinal, considerando a realização dos cuidados paliativos pela Atenção Primária como prática fundamental para humanização da assistência aos idosos, é imprescindível que a discussão sobre as dificuldades vivenciadas e possibilidades de avanço seja ampliada na sociedade.



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Referências


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